Algo profundamente marcante para nós, amazônidas, durante esta COP30 foi o racismo, a xenofobia e o colonialismo explícito com que parte expressiva do Sudeste — com honrosas exceções — tratou o povo do Norte e a nossa cidade de Belém. Não é novidade para ninguém que a Amazônia carrega desafios gigantescos, especialmente nas áreas social, urbana e ambiental. Reconhecendo exatamente isso, bilhões de reais foram investidos para diminuir desigualdades históricas e inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento. Ainda assim, nenhuma das nossas dificuldades justifica o tom de violência simbólica com que mídias, jornalistas, políticos, influenciadores, bots e pessoas comuns — todas operando graus variados de fascismo cotidiano — falaram sobre nós.
Uma coisa é a crítica justa, necessária e legítima às condições do país ou aos problemas reais da região. Outra, completamente diferente, foi o massacre midiático disfarçado de jornalismo ou opinião, quando na verdade se tratava de uma campanha sistemática de deslegitimação da COP30 e de destruição da imagem de uma cidade, de um povo e de uma cultura. Tentaram, mas não deu certo.
Apesar das provocações, do oportunismo de grupos políticos que flertaram com tumultos logo no início da Blue Zone, ou do incêndio acidental no encerramento, e mesmo reconhecendo que o maior problema ambiental do planeta é o capitalismo predatório, o evento foi um sucesso — e um sucesso especialmente para Belém.
Foram criadas novas infraestruturas, algumas há décadas reivindicadas pelas periferias. Outeiro, por exemplo, virou símbolo dessa virada, impulsionado pela nova ponte e pelo novo porto. Em pouco mais de dois anos de trabalho, a cidade avançou o equivalente a uma década. Não existe mágica: muito ficou de fora, os investimentos foram desiguais e a dívida com as periferias — negras, ribeirinhas, indígenas, quilombolas — ainda é enorme. Mas é inegável o salto civilizatório. E mais do que concreto, houve um salto simbólico: o amor próprio do paraense e do belenense, que se viram diante dos olhos do mundo e, apesar dos ataques, foram continuamente elogiados pelos visitantes estrangeiros e até por muitos sudestinos que conviveram com nosso povo durante essas duas semanas.
Eu já dizia antes que, mesmo que tudo desse errado, Belém já teria saído no lucro — social, econômico e político. Mas deu certo. E deu certo dentro dos limites do sistema capitalista global e das próprias regras da COP, onde decisões só são tomadas por consenso entre 195 países — da China a Tuvalu. Mesmo nesse cenário complexo, houve estratégia e planejamento. Pode-se discordar do governador do Pará, Helder Barbalho, mas é inegável que foi dele a iniciativa original de disputar a COP30 para Belém. A ideia foi imediatamente abraçada pelo governo Lula, e ambos enfrentaram chantagens e ameaças políticas por terem ousado fazer de Belém o centro de uma nova estratégia ambiental para o Brasil e para o mundo.
Dessa teimosia (e também desse projeto político) nasceu a Belém pós-COP30: mais altiva, mais confiante e mais consciente de seu papel global, sem romantizar seus problemas nem esquecer a imensa dívida social que continua aberta. Ainda há muito o que fazer, e só manteremos essa projeção se formos capazes de garantir que os benefícios cheguem também às bordas da cidade, às ilhas, às quebradas e às comunidades invisibilizadas por séculos de centralismo e desigualdade.
Mas, neste pós-COP, o que fica é um misto de saudade (alguns brincam chamando de “depressão pós-COP” rsrs) e a certeza de que Belém não será mais a mesma. Uma cidade que experimentou o gosto de ser centro mundial do debate climático não volta mais ao lugar de invisibilidade. Agora que provou sua própria força, não quer — e não deve — abrir mão dessa liderança.

